Reifazedor

Sem Misericórdia

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“Eu sinto muito por isso,” Akiros disse enquanto puxava a mulher pela corda que prendia seus pulsos. A sensação da corda apertada em seus braços era familiar demais para ela, mas não de um jeito bom. “Mas eu preciso te levar pro chefe.”
Kressle não disse nada, e apenas seguiu cabisbaixa. Em sua mente, ela se amaldiçoava por ter perdido a paciência tão perto de cumprir seu objetivo. Se apenas ela tivesse esperado mais um pouco, tomado mais cuidado… Agora ela ia morrer sem ter completado sua vingança.
O aposento nos fundos do castelo para o qual Akiros a levou parecia quase aconchegante comparado às paredes frias de pedra do resto do monastério arruinado.
Em uma mesa de madeira no canto da sala, havia dois homens sentados. O primeiro era um sujeito pálido e de feições afiadas, de cabelo preto e comprido. Quando Akiros e Kressle entraram na sala, ele olhou para os dois com interesse, mas após alguns segundos, retornou sua atenção para as adagas que estava afiando. O outro homem era tão alto e largo que nem parecia humano, com uma expressão estúpida em seu rosto e mãos enormes, e estava tão distraído brincando com pequenas estatuetas de madeira na forma de dragões e cavaleiros que ele nem notou a presença dos dois.
De pé do outro lado da mesa, estava ele. Kressle olhou com desprezo para seu ‘tio’. Ele era um homem de meia idade, careca e com os dentes da frente faltando. A mulher sentiu vontade de pelo menos cuspir na direção dele, apenas por princípio, mas decidiu não fazê-lo porque dessa distância ela provavelmente iria errar.
Akiros, porém, a conduziu para o outro lado da sala, onde ela teve uma visão aterrorizante. Sentado sobre uma pesada cadeira de madeira, coberta com peles dos mais diversos animais, estava um homem alto, com o peito descoberto, largo como um barril e peludo como um cachorro. No entanto, sua característica mais marcante era o capacete que cobria toda sua cabeça: Era feito do crânio de algum tipo de cervo, e parecia dar-lhe galhadas.
“Lorde Cervo.” Akiros disse em um tom subserviente. “Nossos guardas encontraram essa mulher tentando entrar pelo portão.”
O homem sentado na cadeira levantou seu pescoço devagar, como se tivesse sido acordado de um longo sono e fez um gesto com a mão para que Kressle se aproximasse. Com o incentivo de Akiros, Kressle relutantemente deu um passo a frente.
Rápido de mais para que pudesse se afastar, o homem sentado agarrou-lhe o queixo com sua mão grossa. Kressle pode realmente sentir a força dele quando ele virou sua cabeça para ver melhor o seu rosto. Finalmente, ele a soltou rudemente, empurrando-a para trás e quase derrubando-a no chão.
“Você chama isso de mulher?” A voz do Lorde Cervo era grave e grossa, e mal parecia humana. “Isso é quase um insulto.”
‘Você também não é grande coisa.’ Kressle pensou, mas preferiu não falar.
“O que te traz aqui, mulher? O que você procura?”
Kressle virou sua cabeça, apontando para o careca com o queixo. “Eu vim por ele.”
“Ela estava batendo com essas machadinhas no portão, gritando para que entregássemos ele.” Akiros complementou, entregando as duas machadinhas de Kressle para ele.
“O que esse homem te fez para você vir até aqui atrás dele?” O Lorde Cervo perguntou enquanto virava uma das machadinhas em sua mão, estudando-a.
“Meus pais…” Kressle começou a falar. “Eram bandidos, no mesmo bando que esse homem. E outros, também, que eu já matei. Eles prometeram que se qualquer coisa acontecesse com meus pais, eles cuidariam de mim. Mas quando meus pais morreram numa emboscada que não deu certo, eles me venderam como escrava em Daggermark. Por três anos eu vivi como escrava, até ter uma chance de escapar.”
“Entendi… Sua motivação é vingança.” O Lorde Cervo continuava examinando os machados. Para um homem de seu tamanho, eles eram quase como brinquedos. Ele então levantou um dos machados e rapidamente desferiu um golpe na direção de Kressle.
Antes mesmo que ela pudesse levantar os braços para defender-se, o Lorde Cervo já tinha atingido um golpe preciso, cortando a corda que amarrava seus pulsos. Ela caiu com um baque na frente dos seus pés, suas mãos liberadas. O homem alto então entregou um dos machados de volta para Kressle:
“Me mostre até onde vai sua vingança.”
Sem hesitar, Kressle virou-se e lançou sua machadinha na direção do homem careca. A arma deu uma volta no ar, duas, e enterrou-se com precisão no rosto do bandido, que caiu com um som pesado sobre a mesa, incitando uma expressão de nojo no homem pálido e um susto no gigante.
“Sem misericórdia, hã?” O Lorde Cervo perguntou.
“Certas pessoas não merecem misericórdia.” Kressle respondeu.
“Então, para onde você vai agora?”


Um pouco mais de um ano já havia se passado desde que Kressle tinha começado a trabalhar para o Lorde Cervo. Aparentemente, ele não gostava de ter mulheres no castelo, porque isso distraía os outros bandidos. Além disso, ele não tinha dito nada explicitamente, mas Kressle havia reparado que ele bebia ainda mais quando ela estava por perto.
Por causa dessas razões, o rei dos bandidos havia decidido mandá-la para o norte, para liderar um acampamento de bandidos que tinha se estabelecido nas margens do rio Thorn. Desde então, Kressle tinha aproveitado sua vida pacata como chefe, ou o mais pacata que a vida de um bandido poderia ser.
Tão remoto quanto as Terras Roubadas eram, os bandidos de Kressle não faziam muita coisa na maior parte do tempo. De uns meses para cá, eles haviam conseguido um ‘acordo’ com o dono de um posto de trocas mais ao norte, mas cada mês ficava mais difícil cumprir as cotas arbitrárias que o Lorde Cervo exigia.
Kressle suspirou, virando em sua mão um anel de latão com uma pequena pérola de enfeite. Tratava-se da aliança que ela havia roubado da esposa do dono do posto de trocas algumas semanas atrás, mas examinando-a com cuidado, ela concluiu que não tinha grande valor. “Lixo.” Ela disse, jogando-o na sua pilha de tesouros.
Desse jeito seria impossível cumprir a cota do mês. Kressle nunca admitiria, mas o Lorde Cervo a assustava, e como se apenas isso não bastasse, rumores que vinham do sul era de que ele estava ficando mais e mais instável a cada dia.
“Kressle?” Ela ouviu uma voz lhe chamar. “Eu voltei.”
“Happs!” Kressle se levantou e virou para a direção da voz.
O sujeito que havia acabado de chegar a cavalo vestia um grosso capuz verde sobre a cabeça, cultivava um cavanhaque escuro e parecia ser cego do olho esquerdo, coberto por catarata. Amarrado a sua cintura, ele levava uma aljava com flechas de pluma branca, e um arco feito de madeira negra. Ao contrário da maioria dos bandidos, ele tinha boa constituição e andava de costas eretas, uma parte do motivo pelo qual ele era o preferido de Kressle.
“Kressle, o que foi?” O homem perguntou, em um tom debochado. “Você parece chateada.”
“Como eu não estaria? Aquele maldito cabeça de osso aumentou a nossa cota novamente.” Kressle disse, irritada. “Ele fica o dia todo sentado no seu castelo enchendo a cara enquanto nós temos de nos esgueirar pela floresta, fazendo o seu trabalho sujo!”
“Talvez quem sabe…” Happs teorizou, retirando seu capuz e pendurando-o em um galho de árvore próximo “Ele esteja lhe testando? Aumentando as cotas para ver até onde você consegue chegar?”
“Hah! O Lorde Cervo?” A mulher riu. “Aquele brutamontes? Você não ouviu a história? Semana passada ele quebrou o pescoço de um capanga porque ele cuspiu no chão do castelo! Partiu a coluna dele igual um graveto, com uma mão só!” Kressle abaixou a cabeça e suspirou. “Provavelmente vai fazer o mesmo comigo.”
Happs olhou pro chão e coçou a nuca. Então ele deu um passo a frente e colocou sua mão no ombro de Kressle. “Não, ele não vai.”
“Como não?! Não atingimos nem a metade da cota, e aqueles comerciantes do norte não tem nada de valor! Igual a nós!” A bandida chutou uma das sacolas de tesouro, espalhando várias moedas de cobre quase sem valor pelo chão de terra.
“Eles tem um ao outro, Kressle.”
“Então! Eles tem mais que nós.”
“Você tem a mim, Kressle! Isso não é o bastante? Porque pra mim, você é tudo que eu preciso.”
Kressle respirou fundo. “Isso não importa. Em uma semana, o Lorde Cervo vai pendurar nossas cabeças na parede de fora daquele castelo sucateado dele.”
“Nós podemos fugir, Kressle. Ir pra longe daqui, só nós dois. Mivon, ou talvez Touvette. Eu posso ganhar o suficiente caçando pra nos sustentar por um tempo. Veja, já é dia de ir coletar os impostos no posto de trocas. Eu vou pegar tudo que eles tem, nós ficamos com a maior parte e distribuímos o resto para os outros bandidos, e depois sumimos. Vai demorar pelo menos uma semana pra notícia chegar ao Lorde Cervo, e mais duas até ele estar sóbrio o suficiente para entendê-la.” Happs estendeu sua mão para Kressle. “Então, temos um plano?”
Kressle olhou para a mão estendida do homem a sua frente, sorriu e a apertou. “Temos um plano.”
“Então eu estou saindo.” Happs colocou novamente seu capuz e andou até o seu cavalo.
“Você vai demorar muito dessa vez?”
“Apenas algumas horas.” O bandido falou, montando em seu cavalo. “O dono do posto de trocas é bravo, mas ele nunca colocaria a mulher em risco. Tudo que eu pedir ele vai me dar, você vai ver.”
“Espero que seja mesmo.”
“Não se preocupe, vai ser fácil!”


Happs Bydon estava jogado no chão, sua respiração pesada e seu rosto sujo de sangue e terra. Seu único olho bom se movia desesperadamente pelo pátio do posto de trocas, procurando por uma rota de fuga, por seu cavalo, por seu arco, algum meio de escapar e voltar para Kressle.
Os aventureiros tinham aparecido de lugar nenhum, quatro deles. Mesmo estando em maior número, os bandidos caíram rapidamente perante a espada do homem de cabelo de fogo, a besta do elfo, as poções da mulher de orelhas de raposa e as magias do meio-orc encapuzado.
A maioria dos bandidos que ele havia trazido consigo jaziam falecidos pelo chão de terra ao redor dele. Um sortudo desgraçado havia conseguido montar em seu cavalo e fugir a rápido galope de volta para o acampamento, para contar a Kressle sobre os aventureiros e o fracasso na tomada do posto.
Happs não era nem nunca havia sido um homem orgulhoso. Ele resolveu que sua melhor chance de continuar vivo era se rendendo para os aventureiros. Se ele contasse a localização do castelo do Lorde Cervo, certamente sua vida seria poupada! Se ele implorasse, os aventureiros não iriam machucar Kressle!
Com o resto de suas forças, Happs se reergueu tremendo, ficando de joelhos e agarrando-se as roupas do aventureiro mais próximo, o meio-orc, suas mãos abertas em pleno sinal de súplica.
“Eu me rendo! Eu me rendo!” O homem barbado pediu. “Misericórdia, por favor, misericórdia!”
“Misericórdia?” O meio-orc respondeu friamente, removendo uma adaga de dentro de seus robes. “Certas pessoas não merecem misericórdia.”
E de um único movimento, abriu sua garganta, deixando que o sangue e a vida do homem escorressem para o chão de terra.

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DM_Ele

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