Reifazedor

Contos de Ravnir - Uma Tribo

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Naquela manhã de Rova, soprava uma brisa gelada, e mesmo que o sol estivesse brilhando Jannes não conseguia sacudir o frio do corpo. O outono tinha aspecto de que ia ser pesado. O inverno então, ele preferia nem pensar sobre. No entanto, como sempre, lá estava ele, às cinco da manhã, na boca da mina. Como um relógio de corda, Jannes sempre chegava às cinco, sempre o primeiro.
Jannes era um sujeito que inspirava respeito, e não apenas porque ele era um supervisor da mina. Tinha 1 metro e 98 de altura, e quase tudo era músculo. Ele não falava muito com ninguém, nem gostava de sair com seus colegas para beber. Tinha também um tom de pele consideravelmente mais escuro do que as pessoas dessa região de Avistan estavam acostumadas. Obviamente, ele não tinha nascido por aqui, mas como ele era quieto, ninguém sabia de onde ele tinha vindo. Rumores, porém, haviam vários: Uns diziam que ele era um escravo escapado de Cheliax. Outros, que ele tinha sido um soldado em Andoran que cansou-se daquela vida. Também diziam que ele tinha sido um templário em Mendev e que fugiu para os Reinos Ribeiros com medo dos demônios, e seu deus o abandonou.
No fundo, ninguém sabia de onde o homem tinha vindo, mas todos sabiam que você não se metia com o supervisor Jannes. O sujeito levava o trabalho na mina muito a sério, e ainda por cima era irritado. Os mineradores ainda falavam sobre a vez que ele quebrou duas costelas de outro homem porque ele estava escondendo pepitas dentro da calça. “Esse ouro é de Ravnir.” Jannes havia dito para os outros depois que se acalmou um pouco. “Quem rouba da mina está roubando do povo.”
Jannes entrou no escritório dos mineradores para pegar seu equipamento. Sentado atrás de uma mesa no canto da sala, tomando um copo de café quente, estava Madoc, um velho anão mineiro, já aposentado, que hoje em dia administrava a mina.
“Dia, Jannes.” O velho disse. “Frio hoje, né?”
“Dia, chefe. Poisé.” O homem acenou com a cabeça enquanto pegava uma picareta e duas varas solares no canto da sala.
“Como vai a Nadia?”
“Bem, obrigado. A criança deve nascer em dois meses.” Disse o homem enquanto amarrava seus equipamentos no cinto.
“Primeiro filho, né? Foda.” O anão deu um longo gole no seu copo de café. “Sabe, você é uma exceção. A maioria dos mineradores daqui é solteirão.”
“É, eu reparei.”
“Quando um dos pobres coitados consegue se casar, eles vão trabalhar em alguma fazenda por aí ou algo assim. O pagamento é menor, mas não é tão arriscado, sabe? E você agora, com um filho a caminho… Sei lá, Jannes.”
“Minerar é tudo que eu sei fazer, chefe.” Ele respondeu concisamente.
“É, e você faz muito bem.” O anão passou a mão pela sua barba. “Então, eu preciso que você faça algo pra mim hoje. A gente está recebendo uns mineradores novos, e tem alguém que eu queria que você mostrasse a mina.”
“Hoje eu estou ocupado com a ampliação do túnel 3. Manda o Mervel cuidar disso.”
“Não, Jannes, tem que ser você. Você tem que treinar a supervisora do turno da noite.”
“Turno da noite?” Jannes se surpreendeu. “Não temos turno da noite. Quem nos nove infernos é louco o bastante para cavar de noite?”
“Kobolds.”


‘Era só o que me faltava.’ Jannes pensou enquanto a supervisora nova era apresentada aos outros mineradores. ‘Agora eu vou ter que cuidar de um maldito lagarto.’
“Jannes.” Madoc disse, trazendo até ele um tipo de réptil bípede, de escamas pretas e com não mais do que 80 centímetros de altura, coberta com um casaco de peles de coelho. “Essa aqui é Mipik. Ela veio altamente recomendada pela tribo Sootscale, e eu quero que você a treine para fazer seu trabalho no turno da noite.”
“Essa coisa é uma mulher?”
“Diabos, Jan, não seja rude!”
“Não, não, não é problema.” Mipik disse com um pronunciado sotaque dracônico. “Mipik entende.”
Jannes não conseguiu deixar de reparar, com suspeita, nos dentes afiados da kobold.
“Já perdemos tempo demais com isso.” Jannes empurrou uma picareta nas mãos de Mipik, que eram obviamente pequenas demais para usá-la de forma efetiva. “Se você vem, venha de uma vez.” Disse ele, se virando e caminhando para dentro do túnel.


Jannes andava pelos túneis escuros empurrando o carrinho de metal e segurando uma vara solar acesa com a outra mão. Para seu desgosto, Mipik vinha logo atrás, carregando com dificuldade a picareta exageradamente grande. Os dois já vinham descendo o túnel por cerca de 15 minutos até que Mipik quebrou o silêncio:
“Perdão, senhor Jannes, é?”
“Que foi?”
“É que chefe Madoc diz que senhor Jannes treina Mipik.”
“E daí?”
Mipik ficou quieta uns segundos, como se estivesse tentando lembrar as palavras certas. “É que senhor Jannes é quieto, então Mipik…”
“Ok.” Jannes a interrompeu. “Eu vou te treinar então. Primeiro você bate com a picareta na parede até caírem pedaços. Daí você enche o carrinho e volta lá pra cima. Pronto, fácil.” Ele disse, de forma rude.
“Ah sim! Mipik entende.” A kobold não entendeu a intenção do minerador. Jannes soltou um suspiro e continuou empurrando o carrinho por mais uns minutos antes de Mipik tentar começar uma conversa de novo:
“Senhor Jannes usa anel em mão esquerda. Mipik entende que senhor Jannis tem companheira?”
“Mhmm.”
“Que bom! E filhotes, senhor Jannes tem?”
“Não.” Ele respondeu curtamente. “Mas minha esposa está grávida.”
“Ah, muito bom.” A kobold acenou com a cabeça. “Mipik tem oito filhotes em tribo. Todos grandes. Muito orgulho. Filhote de senhor Jannes deixa ele muito orgulhoso também, Mipik deseja.”
Jannes soltou um resmungo baixo que poderia talvez ter sido interpretado como um ‘obrigado’.
“Ah! Ah! Senhor Jannes, espera!” Mipik gritou de repente. “Aqui, aqui!”
Jannes parou e virou-se rapidamente. “O que foi?”
A kobold estava apontando para uma mancha meio rosada na parede de pedra.
“É quartzo! Quartzo significa ouro!” Mipik soava animada. “Quase sempre.” Ela acrescentou.
Jannes soltou outro suspiro. “Muito bem, dona lagarto, mas hoje nós estamos cavando no túnel 3 que é mais uns 5 minutos a frente, então… O que você está fazendo?!”
Mipik levantou com dificuldade a picareta pesada sobre sua cabeça e acertou a mancha rosa com força, fazendo cair algumas lascas de pedra no chão.
“Mina de ouro, sim? Mipik minera ouro.” Ela disse, batendo na parede novamente.
Jannes ficou olhando por alguns segundos enquanto a pequena criatura cavava. Ele realmente não esperava que ela fosse conseguir balançar a picareta daquele jeito. Mesmo assim, no ritmo em que caíam lascas a cada golpe, levaria uma semana até que Mipik abrisse uma fenda na rocha.
“Certeza que tem ouro aí?”
“Sim, sim! Certeza!” Mipik bateu contra a parede de novo. “Quase.”
Jannes soltou outro suspiro e caminhou até Mipik, parando com facilidade a picareta com uma mão só. A kobold olhou para ele, um pouco de confusão em seus olhos amarelos.
“Eu ajudo então.” Jannes tirou a picareta de suas mãos e ela deu o que parecia ser um sorriso cheio de dentes pontudos.


No fim do dia, Jannes e Mipik saíram da mina com um carrinho cheio de pedaços de quartzo, uma boa parte deles cobertos com pequenos pontos dourados. Madoc os parabenizou por terem encontrado um veio de ouro novo, e depois que Jannes havia pendurado seus equipamentos no escritório, o anão lhe deu um tapa nas costas e disse:
“Viu? Vocês não fazem uma boa dupla?”
Jannes acenou com a cabeça, contrariado, e voltou para casa resmungando o caminho todo.


A chuva caía com força lá fora. Jannes entrou em casa falando palavrões, tentando tirar a grossa camada de lama escura que havia grudado em suas botas. Seu paletó cinza, a roupa mais cara que ele tinha, estava completamente encharcado.
“Jan?” Uma voz o chamou de dentro da casa. Era sua esposa, Nadia. Jannes imediatamente se arrependeu de ter xingado tão alto. “Como foi lá?”
Jannes soltou um suspiro. “Uma droga. Que bom que você não foi, Nasha.” Jannes pendurou seu paletó no gancho ao lado da porta. “Foi muito triste.”
“Como está a família do Devin?”
“Péssimos. Ah, Nasha, Amery estava chorando tanto! E tudo isso por causa de quê? 6 moedas de prata e um par de sapatos de couro.”
Nadia abraçou seu marido, colando sua cabeça junto ao peito do homem alto. Ele a envolveu com seus braços molhados e apoiou o queixo na cabeça dela.
“Jan, eu estou com medo.”
“Eu sei.” Jannes disse e beijou sua testa. “Vamos sair daqui. Vamos pra um lugar menos perigoso.”
“Pra onde, Jan?” Nadia perguntou, seu rosto ainda apertado contra o peito dele. “A gente não pode mais voltar.”
Jannes não respondeu nada, apenas tirou um pedaço de papel molhado do bolso e o entregou a sua esposa.
“Ravnir? ‘Onde todo mundo é igual’.” Ela leu em voz alta.
O mundo ficou escuro de repente ao redor de Jannes, sua cabana desaparecendo de seu redor e sua esposa de seus braços. Apenas a voz dela continuava:
“Onde todo mundo é igual.”
Jannes olhou de um lado para o outro, confuso. Então ele virou para baixo, para seus braços. Sua pele estava aos poucos tornando-se mais escura e mais dura, até o ponto em que seus braços estavam cobertos por escamas pretas semelhantes às de um lagarto.
Jannes acordou de um salto. Após olhar para os lados e constatar que ainda estava em sua casa em Ravnir, muito mais confortável que a cabana em seu sonho, ele se acalmou. Um pouco de luz já entrava pela janela do quarto, sinalizando que já era hora de ir para a mina. Jannes sentou-se na cama e olhou para o lado. Nadia ainda dormia. Ele colocou uma mão sobre sua barriga proeminente e beijou-lhe a testa, então levantou-se e foi se vestir para partir.


Como sempre, lá estava ele, às cinco da manhã, na boca da mina. Como um relógio de corda. Mas dessa vez, Jannes não havia sido o primeiro.
“Bom dia, senhor Jannes!” disse Mipik com uma voz cansada quando o homem entrou no escritório de Madoc. Ela soltou um bocejo cheio de dentes pontudos. “Perdão, essa hora Mipik costuma dormir.” Ela explicou.
“Dia, Jannes.” O anão estava sentado atrás de sua mesa, tomando café, como sempre.
“Dia.” Jannes respondeu. “Por que o lagarto ainda está aqui? Achei que eles tivessem o turno da noite.”
“Eles tem.” Madoc respondeu. “É só mais hoje. Mipik me disse que vocês não viram a mina toda, e como vocês se saíram tão bem ontem, eu queria que vocês dois dessem uma olhada no resto da mina juntos.”
Jannes suspirou. “Como quiser, chefe.” Ele pegou sua picareta, notando com desgosto que junto a ela agora haviam várias picaretas menores, parecendo ter sido feitas para crianças. “Vamos.” Ele disse para Mipik e saiu andando pela porta, sem esperá-la.


Nas profundezas do túnel mais recente da mina, o túnel 3, Jannes e Mipik cavavam atrás de outro veio de ouro.
“Senhor Jannes!” Mipik parou de cavar por um segundo. “O senhor ouve isso?”
Jannes continuou batendo contra a parede de rocha. “Não.”
“Mipik acha que nós temos que sair.” Mipik soava preocupada. “Mipik acha que a viga de sustentação vai ceder.”
Jannes olhou pra viga de sustentação no teto – um gigantesco tronco de madeira que impedia que centenas de quilos de pedra caíssem sobre os mineradores.
“Impossível.” Jannes continuou cavando. “É um tronco de pinheiro inteiro.”
“Senhor Jannes, Mipik acha que…”
Mas a kobold não conseguiu terminar de falar. Um ruído alto de madeira quebrando ecoou pela mina, e Jannes imediatamente deixou cair sua picareta: Uma grande rachadura havia se formado na viga de sustentação.
“O túnel vai desabar!” Jannes gritou, mas já era tarde – a viga começava a envergar. Jogando sua picareta no chão, Jannes segurou o tronco com as duas mãos.
Poeira caia do teto e o barulho de madeira estalando soava mais alto. Cada músculo do corpo de Jannes estava retesado, tentando segurar centenas de quilos de rocha para que não caíssem diretamente sobre ele. O homem se virou para Mipik, que parecia assustada num canto do túnel.
“O que você está esperando?!” Jannes gritou. “Saia daqui! Avise pros outros!”
“Senhor Jannes, o teto vai cair, o senhor não pode ficar.”
“Se eu soltar essa viga, nós dois morremos, lagarto burro!” Jannes gritou. “Vai logo, eu não vou aguentar muito! Diga pra Nadia que eu a amo.”
“Mas senhor Jannes…”
“Vai logo!” Jannes soltou um berro, sentindo que suas pernas estavam prestes a ceder.
Mipik virou suas costas e, soltando sua picareta, começou a correr à toda velocidade na direção da saída da mina. Jannes esperou até não conseguir mais ver a ponta do rabo da kobold e então mais alguns segundos, até que não aguentou mais e soltou a viga.
O peso da terra acima caiu sobre Jannes, e as pedras o soterraram.


Jannes acordou, sentindo uma coisa quente escorrendo pelo canto da cabeça. Todo seu corpo doía como nunca havia doído antes. Estava escuro. Demoraram alguns segundos até ele se lembrar do que havia acontecido. ‘Então esse é o Jardim dos Ossos?’ Jannes pensou.
“Senhor Jannes! Senhor Jannes!” Uma voz familiar o chamava.
“Mipik?” O minerador mal conseguia distinguir o rosto reptiliano de Mipik na escuridão da mina. Pelo menos ele sabia que não estava morto agora. “Eu não te disse pra sair daqui? Vá chamar ajuda!”
“Senhor Jannes, se Mipik for, vai levar mais de uma hora até Mipik voltar com ajuda. Senhor Jannes pode morrer nesse tempo.”
“O teto ainda pode cair de novo, lagarto burro! Você não tem medo de morrer?! Vai embora!”
“Mipik sabe, Mipik sabe!” Agora Jannes conseguia mais ou menos ver o que ela estava fazendo – pegando pedras e jogando-as para longe. Ela estava tentando desenterrá-lo? “Mas Mipik não pode deixar senhor Jannes sozinho! Se senhor Jannes morre, filhote cresce sem pai. Filhotes de Mipik adultos já, filhotes sabem se cuidar, mas filhote de senhor Jannes não!”
“Mipik, eu estou te implorando!” Jannes agora parecia menos irritado e mais desesperado. “Você ainda pode sair daqui. Me deixe pra trás.”
“Não!” Mipik havia pego a picareta de Jannes e a usava como alavanca para mover pedras mais pesadas. “Na tribo, ninguém deixa outro para trás!”
“Não estamos na porra da sua tribo e eu não sou uma bosta de um kobold sujo! Sai logo daqui!”
“Não! Senhor Jannes está errado!” Mipik continuava jogando pedras pra longe com mais velocidade. “Tribo significa que todo mundo é igual! Tribo significa que todo mundo se ajuda. Ravnir é tribo de senhor Jannes e tribo de Mipik também.”
O sonho daquela manhã voltava à mente de Jannes. ‘Onde todo mundo é igual.’
“Vamos, senhor Jannes! Não desiste tão fácil! Senhor Jannes é grande, então faz força!”
“Mipik, eu acho que quebrei as costelas! Eu não consigo.”
“Senhor Jannes consegue sim!” Mipik movia as pedras tão rápido quanto podia. “Mipik consegue, então senhor Jannes consegue também. Pense em sua companheira e em seu filhote.”
Jannes fez uma força. Com algum esforço, ele conseguia mover os braços. Ele tentou colocá-los embaixo do corpo para levantar as pedras sobre ele, o que pareceu ter algum efeito.
“Filhote de senhor Jannes não vai crescer sem pai. Mipik não deixa!”


Jannes estava deitado em sua cama, olhando para o sol se pondo pela janela. Ele suspirou, olhando para seu corpo enfaixado. Sete costelas quebradas, fraturas múltiplas nas duas pernas, ombro esquerdo deslocado, bacia quebrada e pulmão esquerdo colapsado, ferimentos múltiplos nos órgãos internos… O clérigo que o atendeu disse que era um milagre que ele tivesse sobrevivido, e que se tivesse demorado mais uma ou duas horas para ser atendido, a hemorragia interna teria o levado com certeza.
E tudo que Jannes conseguia pensar era em como estava causando um terrível inconveniente para a pobre Nadia, tão tarde na sua gravidez.
“Jannes? Jannes!” Madoc, sentado num banco ao lado da cama estava tentando chamar sua atenção.
“Hm?” Ele se virou para encarar o anão. “Desculpe, chefe. O que foi?”
“Você pede pra eu explicar como as coisas estão na mina e depois se distrai? Francamente, Jannes, você não era assim quando eu te conheci.”
“Desculpe, chefe. Pode continuar.”
“Então, seu acidente virou assunto na vila. Está todo mundo falando como você salvou Mipik.”
“Eu que salvei Mipik? Como assim?”
“Ela disse para todo mundo que você segurou a viga assim que ela começou a quebrar. Francamente, tem certeza que seu pai não era um ogro? Enfim, Mipik disse que se não fosse por você, ela não teria tempo de fugir das pedras e teria sido soterrada também.”
“Não senhor, foi ela que voltou pra me salvar. Sem ela eu teria morrido.”
“Acho que vocês dois realmente formam uma boa dupla então.” Madoc olhou pela janela. Jannes se virou para olhar também. Quase noite.
“Os kobolds vão trabalhar hoje?” Jannes perguntou.
“Sim, sim.” O anão respondeu. “Mipik já assumiu como supervisora.”
“E como eles estão?”
“Muito bem. Sabe, no começo eu achei que fosse haver briga porque kobolds e raças normais se estranham muito.” Madoc passou a mão pela sua barba. “Mas ter eles na mina é uma vantagem para todo mundo – O conselho de Ravnir aumentou o salário, o número de acidentes diminuiu e a produção aumentou. Acho que funciona bem porque cada um tem sua função, sabe? Os kobolds são pequenos então eles conseguem fazer túneis menores, mas como são fracos precisam de alguém para abrir os buracos e colocar as vigas e levar as pedras até a superfície. Então é, acho que kobolds e humanos se complementam.”
‘Que coisa mais estranha de se dizer.’ Jannes pensou. ‘Acho que só aqui em Ravnir uma coisa dessas é possível.’
“Bem, eu tenho que ir, Jan.” O anão se levantou do banco. “Se eu demorar muito, a patroa vai achar que eu estou bebendo por aí. Melhore logo, viu? Aquela mina não funciona direito sem você por lá.”
“Besteira, chefe, funciona bem demais.” Jannes deu um pequeno sorriso enquanto o anão saía pela porta. O minerador resolveu dormir. Fechou os olhos, mas os abriu novamente ao ouvir um barulho vindo da porta.
“Senhor Jannes, eu posso entrar?”
Pela porta entreaberta, era possível ver o rosto reptiliano de Mipik. Jannes riu.
“Acho que passamos um pouco do ponto de usar ‘senhor’, não acha, Mipik? Entre, vamos.”
“Se você acha melhor, Jannes.” Mipik entrou e sentou-se com alguma dificuldade no banco, um tanto alto para ela.
“O que houve com você? Você está falando bem melhor agora.”
“Ah, eu andei treinando! Desde que eu vim para Ravnir, eu aprendi muitas outras coisas, sim.” Mipik sorriu, mas rapidamente ficou séria. “Você vai ficar bem, Jannes?”
“Isso daqui? Isso não é nada.” Jannes estalou seu pescoço. “Em uns meses eu volto pra mina, você vai ver.”
“Eu espero que sim. E sua esposa, como vai?”
“Pobre da Nadia, tomou um susto tão grande…”
“Eu tenho certeza que sim. Eu ia dizer para ela que você a ama, mas achei que seria melhor se você falasse pessoalmente.” Mipik riu um pouco.
“É.” Jannes sorriu. Depois de alguns segundos de silêncio, ele disse: “Mipik… Desculpa por ter te tratado mal. Obrigado por me salvar.”
“Que é isso, Jannes!” A kobold fez um gesto de desconsideração com a mão. “Eu só fiz o que qualquer um faria. É dever de um cidadão ajudar o outro, não é? E você me salvou também, eu não podia te deixar ali.”
“É, acho que sim.”
Mipik se levantou e espreguiçou-se. “Aiai, eu dormi pouco esse dia. Mas é isso, Jannes, tenho que ir para a mina agora. Outro dia eu passo para te visitar, tudo bem? Quero conhecer seu filho logo, viu?”
“Não tem problema nenhum. Você é de casa.”
Mipik começou a andar na direção da porta e quando saiu puxou a maçaneta para fechá-la, mas foi interrompida:
“Ei Mipik, antes de você ir…” Jannes disse, apontando para ela com seu braço direito, menos ferido que o esquerdo. “Você por acaso sabe o que uma madrinha faz?”

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DM_Ele

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